sábado, 16 de agosto de 2008

A beleza onde ninguém desconfia

Nos 94 anos em que viveu serenamente, como convém a um baiano, Dorival Caymmi - o último patriarca da música brasileira - deixou cerca de 120 músicas, todas irretocáveis. O que tinha de ser aprimorado nelas, foi feito por ele mesmo, rigoroso que foi com cada verso e cada sílaba na interação com a melodia. No ensaio Caymmi: Uma Utopia de Lugar (Editora Perspectiva, 1993), seu conterrâneo Antônio Risério colocou em xeque o mito da espontaneidade em torno da criação do painho baiano. "O coloquialismo caymmiano costuma obscurecer o fato de que Caymmi é um artesão verbal consciente e paciente, como se o coloquialismo não fosse uma questão de estilo, ou como se a ‘espontaneidade’ não fosse uma questão de método. Caymmi, leitor de García Lorca, não levaria às vezes dez anos para compor uma canção. Escreveria um poema por dia. Caymmi é cristalino, coloquial, mas nunca desleixado", analisou.
Melhor exemplo é o do próprio compositor. Na biografia Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo (Editora 34), escrita pela neta Stella Caymmi, Dorival descreve como concluiu, de maneira lapidar, uma de suas mais geniais e amadas composições, João Valentão. "Eu tinha achado: 'E assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo que sua terra, não há'. Depois, veio um contestador: 'Por que não diz sua vida?’. Eu fiquei entre vida e terra muito tempo, na dúvida. Aí achei que terra abrangia melhor, encorpava melhor, adocicava melhor a coisa, o pé na terra. E aí eu elogiava essa terra toda. Pois bem, isso durou nove anos, tempo que não se sentiu. Tempo não é para fazer sofrer. Não precisa armar um esquema para trabalhar em cima dele. Tudo nasce espontaneamente. No meu caso, forçado, em geral, não faço. Estimulado, provocado, não sei fazer."
Na música de Caymmi está expressa a mais completa tradução da Bahia, mas ela singra além do mar, das histórias de pescadores, dos temperos do vatapá, da doçura dos quindins de Iaiá, das sombras praieiras de Itapuã. É o samba de uma terra que deixa a gente mole e se instalou no imaginário nacional como o choro de Pixinguinha, a bossa de Tom Jobim, o agreste de Luiz Gonzaga, a exaltação de Ary Barroso. Todo mundo conhece Marina, Carinhoso, Garota de Ipanema, Asa Branca e Aquarela do Brasil.

O samba-canção Marina, lançado com enorme sucesso em 1947, teve mais de 60 gravações até o ano 2000. Além do autor, outras das maiores vozes da era do rádio - Francisco Alves, Dick Farney e Nelson Gonçalves - a gravaram no mesmo ano, quebrando um tabu na época. Outro de seus standards, Maracangalha ganhou fantasias novas incontáveis vezes desde 1956. Grande êxito de carnaval, só em 1957 foi regravada 11 vezes.
Rosa Morena, Só Louco, Nem Eu, O Que É Que a Baiana Tem?, Dora, Samba da Minha Terra, Saudade da Bahia são outros de seus clássicos inúmeras vezes revisitados, e modernizados a cada década, embora o cancioneiro de Caymmi embutisse em si a própria modernidade. Tudo o que suas canções exigiam eram aquele vozeirão emocionante de baixo cantante, trovejante e doce, iniciado em coro de igreja, acompanhando-se ao violão, mistura de primitivo com impressionista, como bem definiu Caetano Veloso. Não gostava que outros intérpretes gravassem suas músicas, no que a filha dileta Nana, uma de suas melhores intérpretes, vivia a provocar em tom de brincadeira: "Não 'tô nem aí', estou pouco me lixando. Já gravei muita coisa dele e vou continuar gravando. Ainda vou ganhar muito dinheiro em cima dele."
Caymmi não era mais rígido com os filhos do que era com os outros. Adorou o álbum de sambas que Nana, Dori e Danilo gravaram por ocasião dos seus 90 anos, em abril passado. Não gostava que cantassem errado suas letras, que modificassem a melodia, que adornassem os arranjos. Poeta do gingado, Caymmi tinha graça como ninguém. Quando canta que A Vizinha do Lado "mexe com as cadeiras pra lá, mexe com as cadeiras pra cá", a música faz o que diz a letra, no ritmo sincopado de samba sem firulas. Criador de estilo ímpar e sem seguidores, seu universo temático sempre abraçou as tradições populares. Foi a tradução dessa realidade, com uma singularidade estética - a qual, como diz Risério, "podemos perceber espontaneamente sem necessidade de apelar para o esforço crítico" - que Caymmi conseguiu se destacar no cancioneiro nacional, na época em que imperavam os maiores bambas do samba carioca.
Caymmi veio ter no meio deles em abril de 1938, quando pegou "um ita no norte", de verdade, trazendo na bagagem a vontade de ser jornalista e ilustrador. Incluiu na mala canções incompletas que terminou nas andanças noturnas pelo centro do Rio. A Preta do Acarajé, O Mar, A Lenda do Abaeté e O Que É Que a Baiana Tem?, com referências explícitas ao berço deixado para trás, estavam entre elas. "Eu ia sentir o cheiro do mar ali na Praça Mauá", recordou o compositor. A fase de nostalgia rendeu clássicos supremos como Saudade da Bahia e Peguei um Ita no Norte.
O Caymmi romântico cantou o amor cheio da melancolia e da doçura com que velou os mortos em cantos de incelença. Observador detalhista e generoso, imortalizou personagens de um jeito brasileiro naturalista. Como velho homem contemplativo do mar, enfeitiçou os sentidos com misteriosas histórias de pescadores, naufrágios e temporais, impregnado das forças da natureza. Ministro de Xangô, além de filho de Iemanjá, Oxalá e Ogum, de contas lavadas no candomblé de Mãe Menininha, iluminou a porção africana da cultura nacional em louvações aos orixás.
Carregou nas tintas da sensualidade das moças em movimentos de sambas gingados, com a picardia de quem dizia que gostava tanto de mulher que quando nasceu olhou para trás. Precursor dos movimentos modernistas da música brasileira popular, foi pilar consistente de João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque influenciando, conseqüentemente, a bossa nova, o tropicalismo, seus derivados e paralelos. A obra de Caymmi edificou-se acompanhando um século crucial da história do Brasil. Boa parte de uma contém a outra."

Lauro Lisboa Garcia - O Estado de S. Paulo



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