segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Amélia que era mulher de verdade


A promessa das máquinas


Filhos não são autocriantes, louças não são autolimpantes e roupas não são autoguardantes. Era tudo balela dos Jetsons e dos Robinsons

Eu tinha duas famílias prediletas, ambas do futuro: os Jetsons, de um desenho animado, e os Robinsons, do seriado Perdidos no Espaço. Achava-se que acabaríamos usando macacões prateados colados ao corpo e botinhas que finalizavam essa espécie de malha unissex. Era década de 60 e na televisão o porvir era representado igual ao presente, mudando só o figurino. Os homens ainda trabalhariam fora, enquanto as mulheres cuidariam do lar, mas haveria um atenuante: os robôs. Os Robinsons tinham um exemplar macho e os Jetsons tinham Rosie, uma eficiente empregada automática.

Todos conhecemos a imagem clássica da dona de casa da época: cabelo duro de laquê, vestido acinturado, seios espetados e um sorriso no rosto enquanto segura, sem esforço nenhum, seu aspirador de pó. Representante de um novo tipo de nobreza ao alcance da classe média, ela tem suas máquinas. Não lida mais com trapos e vassouras, a sujeira é aspirada. Ela não cozinha mais, aciona mixers, fritadeiras, grills. Suores e outros detritos são problema de sua máquina de lavar e os calos nos joelhos ficarão por conta da enceradeira.

O cotidiano doméstico lembra o trabalho do pobre Sísifo, empurrando a pedra montanha acima para em seguida vê-la despencar, retomando a tarefa infinitas vezes. Lava-se e arruma-se o que, na seqüência, será sujo e esparramado, cozinha-se o que será imediatamente devorado. O sorriso na cara das senhoras das propagandas e dos meus seriados favoritos, seu inalterável humor de Noviça Rebelde, ficava por conta de um engano, seriam liberadas do trabalho doméstico. Lamento dizer: a promessa de Rosie não se cumpriu.

Sorriso congelado, só de miss

Fornos não são verdadeiramente autolimpantes, louça e roupas não são autoguardantes, o ferro elétrico continua exigindo manobras humanas e, principalmente, filhos não são autocriantes. Nem o produto químico mais incrível vai ajudar a sorridente moça do comercial a abstrair que ela está limpando uma patente. A formação de uma família inclui um sem-número de atividades que têm que ser executadas pessoalmente, as quais sabemos que, se não as desempenharmos, pagaremos caro por isso, pelo menos com a culpa. A tarefa de convencer as mulheres dos encantos do lar incluiu um grande engano: vocês nunca mais se sujarão para limpar, nunca mais se cansarão. Balela, a fome e o caos não cansam de retornar.

Não me venham exigir esse sorriso congelado de miss, de atleta de nado sincronizado, enquanto corto cebola. Ser mulher continua dando um trabalho cotidiano sem glória nem memória, do qual saímos com a sensação de não ter feito mais que a obrigação. No dia seguinte, a sujeira, a bagunça e as incessantes necessidades dos filhos levarão tudo à estaca zero. Sísifo.

Por isso, aos ainda poucos e maravilhosos homens que começaram a dividir conosco esse campo de trabalhos forçados a que chamamos lar, as boas-vindas. A dois fica um pouco menos penoso. Pensando bem, isso é ainda melhor do que a Rosie.

Diana Corso, No Divã - [Revista TPM, Novembro 2008]

A nova moda entre solteiros de Rio e SP: contratar ''esposa de aluguel''

Cresce número de mulheres que ganham dinheiro cuidando de casas alheias; serviços vão de botão a bolo

O anúncio é direto. "Você é solteiro? Sua vida está uma bagunça? Você não precisa de uma esposa, precisa de mim." É assim que Cristiane Passos, carioca de 31 anos, oferece seus préstimos de dona de casa prendada, dessas que se esmeram em pregar botão e fazem bolos em fôrma furada. Ela descobriu uma forma de ganhar dinheiro ao preencher uma lacuna nos lares: a falta de tempo - ou paciência - para cuidados domésticos. Como ela, outras mulheres têm oferecido o serviço sob nomes variados - consultora do lar, governanta por um dia ou, como ela prefere, esposa de aluguel.

"O solteiro não tem quem cuide dele, quem veja que as cuecas estão furadinhas! Se deixar, dormem semanas com o mesmo lençol, em cima de farelos...", diz Cristiane, que se transforma em esposa de aluguel após as 17 horas, quando sai da empresa de manutenção de aeronaves onde trabalha. "Apresento as soluções mais baratas. Falo: Olha, suas toalhas estão horríveis? Aí, compro e apresento a nota." Com R$ 130, faz refeições para o mês todo.

Carlos, Leandro, Douglas - os "maridos" - não reclamam. "Eu diria que ela é uma mulher à moda antiga, mas o serviço é à moda moderna", diz o pesquisador Carlos Bevilacqua, de 40 anos, que mora só e contratou a esposa de aluguel há um ano. "Como todo homem, não tenho tempo nem paciência para cuidar da casa. Mas gosto de ver tudo arrumado." E também de ser surpreendido. "Lembro a primeira vez que abri a geladeira e vi um bolo lá dentro. Eu nem tinha pedido!" Ele prefere que Cristiane se encarregue pessoalmente da limpeza. Em outras casas, ela terceiriza essa parte e só fiscaliza.

E que ninguém confunda os papéis. É que alguns perguntam se estão incluídas "todas" as atribuições de esposa. Educadamente, ela diz que não. E nada de discutir relação."Sou esposa, mas sem os problemas de um relacionamento", avisa ela, que é separada. "Costumo dizer: quando a mulher faz tudo isso de bom grado, não tem valor. Se pagarem, valorizam." Tanta dedicação tem preço, de acordo com a exigência do "marido". "Mas não saio de casa por menos de R$ 50."

SAUDOSA

Nada escapa aos olhos de Emiliana Spínola, de 51 anos, quando entra na casa de alguém pela primeira vez. Museóloga por formação e viúva saudosa dos tempos em que vivia de avental pela casa de 14 cômodos, ela dedica-se ao serviço batizado por ela de "governanta por um dia". Em São Paulo, é procurada por famílias que se mudam para um apartamento menor e por quem não consegue cuidar da casa. Ao custo de R$ 35 a hora.

Antes de aceitar qualquer trabalho, ela entrevista todos da casa. "Preciso conhecer todos os hábitos dos moradores, até as preferências esportivas e religiosas", diz Emiliana, para em seguida desfiar miudezas que escapam à vida atribulada dos clientes: "Sabe o interruptor de luz? É muito comum as pessoas não limparem. E o puxador do armário da cozinha? Sempre sujo..."

Também em São Paulo, a "consultora do lar" Margarete Pereira, de 41, atende a telefonemas de maridos desesperados com a falta de noção doméstica das esposas, mais preocupadas com a carreira. E ela se apressa em dizer: "Tem um pouco de machismo. Mesmo que os homens não saibam cuidar da casa, eles esperam que nós saibamos. Pensam que a gente já nasceu com isso", diz Margarete, cuja hora - seja para organizar um armário ou levar um cachorro ao pet shop - vale R$ 60.

"Outro dia, um marido entrou em contato dizendo que não agüentava mais as reclamações da esposa sobre a empregada." E lá vai Margarete ensinar as funcionárias a usar os produtos. As esposas dificilmente se interessam em aprender. "Muitas não sabem nem um truquezinho. Aceitam que se gaste 12 tubos de detergente por mês!"

Segundo a professora da USP Eni de Mesquita Samara, doutora em História Social, o perfil da mulher em relação à casa começou a mudar entre o fim do século 18 e o início do 19. "As mulheres hoje se preocupam mais com a vida profissional. Já os homens continuam no papel tradicional, preocupados com a vida fora de casa. Criou-se uma lacuna." Eni diz que as pessoas continuam a se importar com a vida doméstica. "E agora, com a falta de alguém que se dedique a isso, o cuidado com a casa ganhou outro papel. Terceirizar é um caminho."

A própria Margarete é um exemplo de mulher mais preocupada com a vida profissional. Apesar de treinar domésticas, os cursos de copeira, etiqueta e governança a tornaram exigente a ponto de preferir não ter empregada. "Tenho de cuidar da casa dos outros e da minha sozinha." Ela não se vê como dona de casa dedicada. "Meu marido até poderia reclamar: estou tão focada no trabalho que minha casa está um caos!"

Mariana Faraco - O Estado de São Paulo

3 comentários:

les disse...

Adorei o post!!
Eu assistiamuito os Jetsons e sonhava em ter uma Rosie quando minha mamis me mandava lavar louça, passar cera, etc...
O tempo passou, a vida profisional substituiu a criança, mas a vontade de ter a rosie, continua até hoje!
Bjocas.
Erika Lapin

Anônimo disse...

(Ari, mande noticias, estou com saudades! Bjo. BRUNO)

Manu disse...

Oi Ariane, adorei seu blog!! Tb adorei ter te encontrado no metrô. Esse mundo é mesmo um ovo. Grande beijo.